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2010 O ano que já começou

Caçu, 11 mil habitantes. Nessa pequena cidade do sul de Goiás, as caldeiras já estão sendo acionadas, marcando o início da produção de uma grande usina de açúcar e álcool. Para verificar os últimos detalhes da fábrica, o executivo José Carlos Grubisich, presidente da ETH, braço do grupo odebrecht na área de etanol, esteve lá na quinta-feira 30. Um dia depois, Grubisich já estava em Mirante do Paranapanema, cidade do noroeste de são Paulo, onde outra usina do mesmo tamanho será inaugurada em agosto. E uma terceira unidade, em mato Grosso do sul, também já está sendo finalizada. Juntas, as três usinas estarão empregando seis mil pessoas e gerando uma receita de R$ 3 bilhões para a ETH até 2012. “Não cortamos um centavo do nosso plano de investimento e, agora que a crise chegou ao fim, estamos mais fortes em relação aos nossos concorrentes”, disse Grubisich à DINHEIRO. Especula-se até que a ETH poderá comprar a Brenco, outra grande empresa de açúcar e álcool. Assim, com apenas dois anos de vida, ela já se aproximaria dos líderes do setor, como a brasileira Cosan e o grupo francês Dreyfus. Odesfecho da história? uma chegada triunfal ao mercado de capitais. “Já estamos sendo procurados por vários bancos de investimento para lançar ações na bovespa”, diz Grubisich.

De certa forma, a história da ETH resume o que está acontecendo hoje na economia brasileira. Grandes investimentos, grandes contratações e empresas assediadas por banqueiros dispostos a recuperar o tempo perdido. Se o primeiro semestre de 2009 registrou pequena queda na produção, os últimos meses já apontam sinais claros de retomada. E o crescimento esperado para 2010, de 4%, virá bem antes do que se imagina. “A economia brasileira já estará rodando nessa velocidade dentro de alguns meses”, avalia o professor e ex-ministro Delfim Netto. Daqui até o final do ano, sairão do papel investimentos privados que somam mais de r$ 160 bilhões, entre financiamentos do BNDES e recursos trazidos pelas multinacionais. Estima-se que, até dezembro, serão criados 3,9 mil empregos formais por dia no Brasil. “2010, na verdade, já começou”, diz o banqueiro Luiz Cezar Fernandes, que adquiriu a filial do Dresdner Bank no Brasil e já avalia outras aquisições no mercado de crédito.

Essa antecipação da retomada econômica está sendo possibilitada por decisões de agentes públicos e privados. E há casos em que apenas uma sinalização positiva foi suficiente para destravar um grande investimento. Em novembro de 2008, no auge da crise internacional, o governo realizou um leilão para a construção da maior linha de transmissão de energia já feita no mundo – com 2,4 mil quilômetros, ela trará eletricidade das usinas do rio madeira, em Rondônia, para uma central em Araraquara, no interior de são Paulo. Quando o crédito secou e o custo do capital disparou, várias empresas desistiram do projeto. Para garantir o leilão, o BNDES se dispôs a financiar multinacionais. “O governo acabou sendo a âncora de tudo”, disse à DINHEIRO Evandro Idalgo, diretor da multinacional sueca Asea Brown Boveri, que, na semana passada, formalizou a assinatura do contrato de US$ 540 milhões e já estava selecionando 40 engenheiros brasileiros que serão mandados para a Suécia, onde o projeto será desenhado. E o mais interessante é que os recursos do BNDES não serão mais necessários. “ bancos privados já estão oferecendo recursos a um custo mais baixo do que antes da crise”, diz Idalgo. A linha de Porto Velho a Araraquara empregará milhares de pessoas nos três anos de construção, a cargo da espanhola Abengoa.

O mercado de trabalho tem sido um dos termômetros mais claros da reto-mada. no grupo Orsa, um dos maiores do País no setor de embalagens, cem funcionários foram dispensados no início do ano, mas todos já foram readmitidos. “Chegamos a pensar em cortar 300 e ainda bem que não fizemos isso”, relata o presidente Sérgio Amoroso, que até criou um neologismo para retratar a crise. “Ela ´despiora´ a cada dia”. Na Unilever, 300 pessoas foram contratadas na fábrica de Igarassu, em Pernambuco, que recebeu investimentos de r$ 85 milhões para fabricar produtos como Omo, Brilhante e Surf. Com as vendas aquecidas, a empresa planeja realizar 75 lançamentos ao longo dos próximos meses. “Quem manteve os investimentos durante a crise vai colher os frutos agora”, diz Luiz Carlos Dutra, vice-presidente da empresa. Na Eletrolux, o susto também já foi superado. A empresa havia demitido 500 pessoas no início do ano, mas já contratou todos de volta, com um bônus: outros 200 novos funcionários entraram na companhia. “O Brasil está tão bem que foi preservado do plano global de corte de custos feito pela matriz na Suécia”, disse à DINHEIRO o diretor Ricardo Conz, da divisão de linha branca da Eletrolux.

Mas nada ilustra tão bem o isolamento do brasil diante da crise como o caso da General Motors. A empresa, que nos estados unidos esteve em concordata, manteve o plano de investir R$ 1,4 bilhão no País até 2012. “É a única forma de continuarmos competitivos num dos mercados mais dinâmicos do mundo”, disse à dinheiro o presidente da montadora, Jaime Ardilla. A empresa, que projeta vender 600 mil carros no brasil em 2009, tem o sonho de chegar a um milhão. E um fator decisivo para o crescimento das montadoras, segundo Ardilla, foi a redução do IPI, que contribuiu para reverter as expectativas negativas do início do ano. Nesse ambiente de expansão, a também americana Ford ampliou sua participação de mercado de 9,8% para 11%. “Conseguimos crescer porque não cancelamos os lançamentos que estavam previstos”, avalia o diretor Rogério Goldfarb. o mais recente foi o da picape Ranger.

Programas de estímulo às montadoras, como a redução do IPI, tiveram impacto na arrecadação de tributos e geraram um debate novo no Brasil. Economistas mais conservadores passaram a criticar a “gastança” do governo federal, como se as contas públicas estivessem prestes a explodir. A seu favor, contaram com um indicador. O superávit primário, que exclui os gastos com juros, caiu de R$ 81,7 bilhões nos primeiros seis meses de 2008 para R$ 31,9 bilhões no mesmo período deste ano. Excluindo-se o fato de que as contas continuam positivas, os críticos da política fiscal desconsideram o fato de que o brasil é um dos países do G-20 que menos recursos utilizou no combate à crise. Enquanto China e Estados Unidos gastaram mais de 5% do PIB, o programa do governo brasileiro não comprometeu sequer 0,5% da riqueza nacional. “Não houve nenhuma explosão de gastos correntes”, avalia o ministro Guido Mantega, da Fazenda. “Houve, sim, uma ação anticíclica, que deu resultados.”

Alinhado com Mantega o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo pediu ao Congresso mais R$ 20 bilhões para gastos adicionais do Bolsa Família, que, na crise, ajudou a manter uma vasta rede de consumo popular, e propôs o PAC 2. a segunda versão do Plano de aceleração do Crescimento deixaria ao sucessor de lula uma carteira de projetos de infraestrutura já aprovados e com as licenças ambientais concedidas. “brasil é muito mais complexo do que só cortar gastos”, disse Bernardo, num recado claro aos economistas mais ortodoxos. na semana passada, a Petrobras e o BNDES anunciaram um acordo de R$ 25 bilhões, que ajudarão a bancar os investimentos da estatal no pré-sal.

O fato é que os investimentos públicos e as desonerações fiscais efetivamente contribuíram para dissipar as nuvens negras do início do ano. O índice de confiança industrial já é praticamente idêntico ao de antes da crise. Em alguns setores, como a construção civil, a taxa de expansão é de dois dígitos. No de cimentos, projeta-se crescimento de 12% em 2009. E o ciclo de otimismo vem contagiando todos os segmentos da economia. “Os pedidos cresceram tanto que já estou pensando no segundo semestre de 2010”, disse à DINHEIRO Roni Argalji, presidente da Duloren, uma das maiores empresas de lingeries do País, que contratou cem pessoas, investiu cerca de E 3 milhões em novas máquinas e fechará o ano com um faturamento de R$ 140 milhões. No setor de tecnologia da informação, a Totvs viu sua carteira de clientes passar de 457 para 567 empresas. Para dar conta da demanda, a empresa contratou 150 engenheiros no primeiro semestre e vai repetir a dose no segundo. “O Brasil faz parte da estratégia de longo prazo de qualquer empresa”, diz o vice-presidente da Totvs, José Rogério Luiz. “E quem compra sistemas de softwares, está pensando nos próximos oito ou dez anos.”

Uma das consequências naturais da volta do crescimento é a valorização do real. Na semana passada, o dólar já se aproximava da barreira de R$ 1,85. Se isso ajuda a combater a inflação, mantendo um ambiente favorável para a atual política monetária, com os juros mais baixos da história recente do País, também afeta a rentabilidade de alguns setores da economia. Entre eles, o agronegócio. Mas isso não tem afugentado os empresários. “Vamos manter para o próximo ano a mesma área plantada, que foi de 200 mil hectares”, disse à dinheiro otaviano Pivetta, que é um dos maiores produtores de soja, milho e algodão do País. A empresa de defensivos FMC, que deve fechar o ano com faturamento de us$ 450 milhões, acaba de aprovar um plano de investimentos para chegar a us$ 1 bilhão em cinco anos. “Com um câmbio favorável ou não, o Brasil é uma das únicas fronteiras agrícolas disponíveis no mundo”, diz o presidente Antônio Carlos Fem.

Todas essas histórias comprovam que os empresários já tiraram a palavra recessão do vocabulário. Ainda que o ano-calendário de 2009 aponte um resultado de crescimento medíocre, entre 0% e 1%, isso terá sido fruto de um primeiro semestre que já ficou para trás. Na semana passada, o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, divulgou um relatório apontando que a crise no brasil durou apenas de outubro de 2008 a abril deste ano. “Definitivamente, deixamos para trás a recessão”, disse ele. As vendas no varejo, que numa rede como o Carrefour estão crescendo 14,3% neste ano, deixam isso claro. E o fato, inegável, é que há que se dar também um crédito ao presidente lula. No tocante ao Brasil, aquilo que prometia ser um tsunami foi apenas uma marolinha.

Font: www.terra.com.br

Por Leonardo Attuch e Hugo Cilo

Com reportagem de Luciana de Oliveira e Gustavo Gantois

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